Jogos de azar

Se tem um problema com os jogos de apostas talvez este seja um texto útil para si!

A maioria das pessoas julga que jogo de azar é o antónimo para jogo de sorte, pois resulta da experiência que maior parte deste tipo de jogos trazem mais azar do que sorte. O que não é propriamente mentira. Mas Azar deriva da palavra Zahar. Nome dado a uma planta do médio oriente, que originou um jogo, onde os jogadores teriam de colocar a flor para cima numa jogada. Contudo existia uma probabilidade de 1/12 do jogador acertar e por isso também a grande probabilidade de errar. 

Dessa forma a palavra Azar está relacionada na sua origem com aleatoriedade ou acaso. No entanto muita gente tem conhecido mais vezes o azar do que a sorte neste tipo de jogo, o que tem gerado um motivo de preocupação psicológica.

Gambling

Existem muitas pessoas que ainda confundem os jogos de azar com o Gambling admitindo que faz tudo parte do mesmo enquadramento, ou seja, que fazem parte dos jogos de apostas. O que é verdade. Contudo existe uma importante diferença entre os jogos de azar e o Gambling. Os jogos de azar são aqueles em que o apostador não tem de ter qualquer tipo de perícia para jogar. São jogos onde o seu resultado está vinculado ao acaso (e.g., raspadinhas, euromilhões e etc.). Portanto, o jogo onde tudo é decidido por elementos que o jogador não pode controlar. Ainda assim os jogos de azar são uma categoria do Gambling.

O Gambling embora escasseie de uma tradução podemos entender como o mercado que paga aos seus participantes mais talentosos através de uma recompensa (usualmente dinheiro). Por isso não consideramos o Poker um jogo de azar, mas sim um jogo que se insere no Gambling. 

Gambling tem crescido nos últimos tempos, tornando-se mais sofisticado e atraente com o desenvolvimento da tecnologia, nomeadamente a internet. O Gambling online é o ambiente por excelência da aposta da maioria das casas de apostas e casinos atualmente. Isto porque a tecnologia aumenta o poder aditivo dos jogos através de estratégias distratoras e programadoras para agarrar a pessoa ao jogo propriamente dito.

Dostoievsky

Em 1886 o autor Dostoievsky abordava o perigo e o fascínio do sistema de jogos. Relatando-o em primeira pessoa, pois nem mesmo a sua mente brilhante foi capaz de escapar à sedução do Gambling. Ele relatou o sentimento de recompensa imediata que estava ligada a esses jogos, estimulando os jogadores a apostar sempre até para recuperar perdas anteriores. O autor de forma exímia descreveu maior parte dos mecanismos psicológicos por detrás do Gambling no seu livro intitulado "O Jogador". Apesar da sua capacidade prodigiosa para escrita e para análise psicológica, o próprio Dostoievsky não se livrou da maldição do jogo que lhe tiraria dignidade e estabilidade financeira durante muitos anos da sua vida. Inclusive o livro "O jogador" serviu para pagar parte de uma dívida que o jogo abriu na sua vida.

O Transtorno de Jogo

O vício relacionado com o jogo foi reconhecido como patologia nos anos 80 pela American Psychiatric Association. Nesta fase o jogo patológico foi considerado como parte integrante dos Transtornos de Controlo e Impulsos. Não obstante, já era perceptível o comportamento mal adaptativo relacionado com a necessidade recorrente de aposta, gerando prejuízos no âmbito pessoal e profissional.

Recentemente o DSM-5 da mesma associação atualizou o diagnóstico, posicionando-o como Transtorno de Jogo (TJ), circunscrevendo aos Transtornos Relacionados com Substâncias e Adição. Estes transtornos têm comorbidade (relacionam-se) com ansiedade e uso de substâncias. 

Existem genericamente três fases caraterísticas do comportamento de jogo: (1) fase da vitória: a sorte inicial é rapidamente substituída pela habilidade no jogo e o indivíduo passa a jogar com maior frequência; (2) fase da perda: prepondera uma atitude de otimismo não realista que passa a ser característica do jogador patológico, o valor da aposta aumenta consideravelmente, utilizando-se economias e contração de dívidas, a perda é difícil de ser tolerada e o indivíduo passa a jogar sozinho; (3) fase do desespero: há consumo maior de tempo e dinheiro, e afastamento da família (Oliveira, Castro e Braga, 2022).

É importante também realçar uma investigação de David Nutt que verificou, através da avaliação sobre pessoas submetidas a técnicas de imagiologia como a Ressonância Magnética, um padrão atípico de atividade cerebral do jogador patológico. Num estudo direcionado para a aposta na roleta de casino.

Neste estudo a pessoa estaria dentro da câmara de ressonância a jogar roleta, através de imagens virtuais, sendo possível analisar a atividade cerebral da mesma. David Nutt verificou então três fases distintas: (1) consistia na aposta propriamente dita, onde não existe atividade cerebral; (2) fase em que a roleta está a circular e desencadeia os primeiros estímulos cerebrais; (3) fase final onde a roleta termina a rotação, sai o número e existe recompensa (acertou) ou não. O que David Nutt verificou é que entre a segunda fase e a terceira fase não existe diferença significativa entre a os módulos neuronais ativos no processo. Dessa forma perder ou ganhar é apenas um número, porque o que interessa é colocar novamente a roleta a girar.

Sintomas a que deve estar atento(a)

1.

Necessidade de Apostar quantias cada vez maiores;

2.

Irritabilidade quando tenta reduzir ou interromper o hábito de jogar;

3.

Incapaz de controlar e faz esforços em vão;

4.

Preocupação frequente com o jogo, analisar jogos de várias ligas e desportos anteriormente desconhecidos para si;

5.

Pedir dinheiro emprestado ou perder montantes elevados;

6.

A necessidade de regressar ao jogo no dia seguinte após perder dinheiro para ficar "quite" e recuperar o perdido;

7.

Mentira compulsiva para esconder o vício até começar a perder o controlo de si mesmo (já nem se reconhece);

8.

Afeta as relações próximas profissionais, de amizade ou amorosas;

Tratamento

O tratamento para o presente transtorno tem evoluído significativamente. A psicoterapia é o tratamento que se tem manifestado mais eficaz, contudo pode existir necessidade da farmacoterapia atuar como ajuda complementar em casos mais graves. É importante reter que a farmacoterapia é complementar e não substituta! Por causa desses mal entendidos tive alguns clientes que chegaram a consultório em péssimas condições financeiras. Em particular um contraiu uma dívida de 40000 euros.

Podemos afirmar que o tratamento se foca em três estágios distintos: (1) supressão do comportamento de jogo problemático (através da autoexclusão); (2) redução das consequências negativas relacionadas ao jogo e; (3) por último, a promoção de saúde e de qualidade de vida.

As Terapias Cognitivas-Comportamentais têm manifestado um óptimo índice de fiabilidade no tratamento deste transtorno. Principalmente numa primeira fase, pois a terapia é pautada pela reestruturação cognitiva, através da limagem de pensamentos negativos, irreais e percepções erradas sobre o comportamento de jogo (distorções cognitivas). Porém também é verdade que dada a superficialidade de tais técnicas, elas podem ser insuficientes na manutenção do transtorno a longo prazo como alguns autores têm detectado. Nessa medida, existem autores que inclusivamente creem que o comportamento de jogo é mais complexo. Por isso, a psicologia analítica procura encontrar o significado (ou falta dele) que conduz a pessoa a ficar viciada no jogo. 

De forma a dar um exemplo prático, na minha própria atividade clínica verifiquei que a literatura científica está certa. A maioria dos atuais apostadores online são jovens homens. Nestes mesmos clientes verifiquei um denominador comum: uma ambição desenfreada por organizar a vida de forma célere. Esse é o seu propósito subtil. Para isso, muitos deles iniciaram o jogo das apostas na brincadeira com amigos na altura do secundário. Nessa altura não tinham grandes responsabilidades e entretanto mantiveram uma vida instável até uma determinada fase em que de repente tudo muda. Apaixonam-se, querem formar uma vida adulta e no entanto não existem bases. Nessa altura gera-se a ansiedade de resolver a vida e surge a compulsão para o jogo como uma "janela de oportunidade". Começam a arriscar mais e quantias maiores até começarem a perder o controlo. 

Claro que cada caso é um caso, mas creio que esta imagem é bastante ilustrativa de algo prático. Se for essa a sua condição procure ajuda o mais rapidamente possível e sem receios!

Entrevista para o JPN

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João Ereiras Vedor

Linha interativa

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